segunda-feira, 2 de junho de 2014

Crônicas de Igor (5) - A biblioteca.

O robô seguia na frente, deixando-me absorto em meus pensamentos. Ele, no íntimo, devia imaginar (ou seria processar?) o quão maravilhado estava com tão descomunal cenário. Quebrou o silêncio apenas para passar mais uma informação:

"À frente de onde estamos, há uma área recreativa. Lá, você poderá deliciar-se tanto com uma leitura quanto testar suas capacidades gustativas".

Confirmei com a cabeça, sem averiguar se ele via ou não. Era impossível, para um admirador das artes, ficar impassível diante da magnitude literária que, lindamente organizada, dividia-se em inúmeras prateleiras que, paralelas, se estendiam em ambas as direções, perdendo-se na penumbra.

Estava decidido. Ali passaria um tempo indeterminado.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Crônicas de Igor (4) - A primeira parada.

Antes de prosseguir a história, abro um parênteses quanto ao hiato em que o leitor (volte das catacumbas, por favor!) foi submetido: deparei-me com problemas além de minha alçada, tais como carência de paciência, criatividade nula, um ar desesperançado com relação há existência de leitores, enfim, um conjunto impeditivo de alto grau cuja justificativa sucumbe diante explicações mal dadas.
Agora, voltemos a nossa programação normal (ou quase)...

***

É loucura, eu sei, seguir cegamente um ser de tão assombrosa concepção, mas que alternativa tinha? Aventurar-me no vazio de fora? Como aparentemente ganhei virtudes fantásticas, não temi os possíveis perigos que viria a encontrar.

"O senhor quer conhecer nossa biblioteca?", sua voz de timbre constante quebrou o silêncio que imperava.

"Claro... Ficaria encantado com a oportunidade", disse após considerar bastante se havia um traço sequer de inverdade no que me era proposto. Uma tarefa, devo salientar, deveras inútil.

E assim atravessamos um grande saguão cujo teto perdia-se na escuridão. Admirei-me com a absurda estrutura, pois, externamente, não se notava tão gigantesca arquitetura.

Mais adiante, uma porta pequena, cerrada, parecia ser a passagem para o nosso destino.

"Está pronto para engrandecer-se com todo o conhecimento existente?", desafiou.

Como abarcar tamanha informação num espaço aparentemente minúsculo?

"Certamente..."

Quando o robô escancarou a abertura, fui banhado por uma luz maravilhosa. Os olhos, ao acostumarem-se com a intensa luminosidade, não puderam crer no que via. Uma imensurável biblioteca se estendia até onde a vista alcançava!




terça-feira, 17 de setembro de 2013

Crônicas de Igor (3) - A Estação.



Uma porta, escancarada. Na verdade, uma passagem retangular, sem nada que impedisse alguém de cruzá-la. Dela, uma tênue luz escapava, sorrateira.

Parei por uns instantes à sua frente, aguardando qualquer movimento. Contudo, o cenário insistia em sua inalterabilidade. Vistoriei os arredores, sem pressa. Nada.

Vendo que não haveria problemas, entrei. Por um momento, minha vista embaçou, forçando-me a acostumar à incandescência que a princípio não aparentar ser tão forte.

"Olá", a voz metalizada surpreendeu-me, mas não a ponto de fazer um escândalo. Era um robô humanoide, sem adereços.

"Oi", aguardei apreensivo um sinal de resposta.

"Bem vindo à Estação", abriu os braços e curvou-se enquanto dizia. O zumbido do movimento era agradável. Quando falava, uma luz cintilava na região bucal. Dos olhos, amendoados e escuros, pude perceber uma leve claridade lilás.

Esperei o próximo passo. Ele voltou à posição original e falou:

"Gostaria de conhecer o lugar?"

Fitei-o, desconfiado, mas, no fim, dei de ombros e disse:

"Ora, por que não? Vamos lá!"