segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Calombos.

Frank, há inúmeros calombos nas minhas costas. E pior, brotoejas surgem em praticamente todas as partes do meu corpo. Sei que você mencionou os nutrientes e como isto nada mais é que um efeito colateral deles, mas, não querendo preocupá-lo, pois, como você sabe, a surpresa e a preocupação inexistem em mim, isso não irá piorar, vai?

Estou trabalhando neste momento numa forma de minimizar os danos e reverter o excesso, mas o faço demoradamente, pois se você estivesse operacional e não sucumbindo à fórmula eu...

Você disse "sucumbindo"?

Eu disse isso?! Não, nada disso! O que quis dizer foi... Ah! Tudo bem! Foi isso mesmo que disse. Devia ter percebido isso quando vi minhas cobaias transformando-se numas entidades disformes e molengas. Desculpe, Igor, mas não sei se há salvação para você...

Tudo bem, Frank. Não pensei que fosse sair vivo quando estive no quarto do pânico. Parece que foi uma o destino me pregando uma peça. Enfim, se for assim, adeus. Foi um prazer.

................ Não! Não posso deixar você desaparecer assim, passivamente! Você tem que resistir! Vamos! Lute!

Adeus, Frank.


E como numa cena de filme de terror, Igor deforma-se cada vez mais. A princípio, parecia um halterofolista que exagerou na inserção de "bomba". Contudo, logo bolhas de superfície ultrafina e tremeluzentes avolumam-se como montanhas revolvidas por incríveis terremotos e, elevando-se, preenchem o espaço de maneira horrenda. Frank, passivamente, apenas se afasta do local, observando o resultado do seu experimento, sabendo que teria que limpar uma sujeira gigantesca.

sábado, 5 de novembro de 2011

O despertar.


 
Luz forte nos olhos. Uma claridade que machuca.

Que lugar é esse? Parece um castelo.

Apesar de estar com o corpo dolorido, não me sinto mal.

Até que enfim. Achei que se restabeleceria mais rápido com os nutrientes.

Quem é você?

Seu anfitrião. Chamo-me Frank. Não me pergunte como veio parar aqui. Assustei-me ao vê-lo desfalecido na biblioteca. Parecia estar lá há bastante tempo.

Por que, apesar de sua horrenda aparência, eu não demonstro qualquer perplexidade ou assombro?

Creio que seja um dos efeitos da alimentação experimental que usei em você.

Espere um momento... Experimental?

Pois é... Estava dando certo com porquinhos da Índia, resolvi arriscar. Apesar de agora eles estarem um tanto quanto mais espertos e armando alguma cilada para mim. Hehe. Aqueles danadinhos...

Perdi qualquer lampejo de surpresa que possuía.

Mas não se preocupe, descobri que há muitas virtudes adquiridas com o processo. Por exemplo: houve um aumento absurdo em sua capacidade cognitiva.

E como você sabe se não fiz nenhum teste?

Tomei a liberdade de medir alguns dados mentais seus. Está tudo aqui registrado. Dados comparativos comprovam que você melhorou em cem por cento sua habilidade de conhecimento. Você é uma esponja de informações humana.

Certo. Ei, espere... sinto um calombo nas costas.

Talvez seja apenas um efeito colateral básico.

Se é assim, sim.

Agora, jovem, diga-me: como se chama?

Ah, claro, que indelicadeza de minha parte. Igor, ao seu dispor.

Igor, a partir deste momento, nomeio-o meu assistente!


OBS: a imagem que ilustra o início deste post pode ser encontrado no site: http://www.underflash.com/a-incrivel-superficie-do-olho. Lá você encontrará mais imagens impressionantes do olho.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

O quarto do pânico.

As unhas quebradas, por terem raspado contra a porta, ainda permanecem fincadas nela. O braço penderia caso não estivesse fincado na madeira. O corpo, inerte, aguarda o momento em que aquilo irá findar, mas seu desejo não é atendido.

A boca seca, os olhos fundos, as costelas à amostra; a grande penitência.

Ele lutara até a exaustão. No princípio achou graça, mas com a insistente situação, sobrepôs-se o nervosismo e por fim veio o desespero.

O tempo ali não era medido e se um dia alguém ousou fazê-lo, este com certeza perdeu-se na nebulosa irrealidade do lugar.

Este, senhores, é o verdadeiro quarto do pânico. E este é o depoimento do infeliz que o adentrou:

Quisera eu não ter cedido à tentação, mas a tendência do homem é buscar sarna para se coçar. E eis que lá estava ela, uma exuberante morena de cílios maliciosamente caídos e bem maquilados, encarando-me. Que pudera eu fazer, a não ser aproximar-me?

Uma conversa despretensiosa, cujo objetivo seria apenas perder-se no âmago imaginativo do desejo, foi pouco a pouco solidificando-se na matéria. Ela desdenhosamente oferecia-se a mim (algo a se desconfiar, mas que nós, homens, tendemos ao engano pensando no sucesso da conquista) e insinuante, distanciava-me dos demais convidados daquela maldita festa de que contente recebi convite.


Tudo ali era medonho, de péssimo gosto; assim como a maioria dos que ali estavam. Não estaria naquele carnaval não fosse um conhecido (mil vezes desgraçado!).

Quando menos esperei, fui empurrado para uma abertura escura na parede pela suntuosa mulher. Quem via à primeira vista, poderia dizer tratar-se de uma passagem para algum cômodo, só que sem porta. Ah, que ingenuidade!

Logo entrei, uma porta antes inexistente cerrou-se do lado de fora. A escuridão instantaneamente ocupou o local.

Por achar que era algum jogo, achei graça. Sem jeito, chamei-a. Contudo, o ar estava pesado e eu emiti as palavras com dificuldade. A grande mortalha desceu de vez!

Por incontáveis vezes bati à porta. Os ares de brincadeira sucumbiram diante do meu desespero. Nada via; era um vazio penetrante...

Não sei quanto tempo havia passado. Uma infinidade? Não sei. Mas tive tempo de analisar toda a minha vida incontáveis vezes.

A esperança, em vão, ainda persistia, principalmente quando os devaneios ondulavam pela minha cabeça.

Mas, abruptamente meus olhos queimam. Um enorme clarão se faz presente. No início, acreditei que finalmente partia dessa para melhor, contudo, ao perceber formas de estantes num salão gigantesco, pensei:


A loucura enfim não tardou...

Não poderia estar mais errado...

Demorou, mas, curiosamente, um ser aproximou-se de mim; ele parecia ter caminhado muito. A impressão que tive foi que ele não acreditava no que via e, cautelosamente, tocou-me. Pude discernir:

Quem é você? O que faz na biblioteca do castelo?

Descobri depois que seu nome era Frank.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Atrás da porta.


Foi num dia chuvoso, quando explorava os cômodos mais obscuros do castelo, que a encontrei. Não era uma sala qualquer. Digo que já me surpreendi com as reais dimensões oferecidas por quartos aparentemente resumidos a um cubículo, mas desta vez tive que segurar o queixo e parafusá-lo com força. Estava diante do maior acervo bibliográfico já registrado!!



É claro que poderia estar enganado, porém, minha vista se perdia em meio às quilométricas fileiras de livros, que na profundidade do salão levava ao longe; isto sustentava minha hipótese de sua grandiosidade.

Estava tudo lá: publicações em bom estado de praticamente todos os autores conhecidos. Como eu poderia saber disso? Bem... na realidade não sabia, contudo, todos os que conhecia estavam lá (o que não eram poucos). Até nomes desconhecidos tive o prazer de encontrar. E o mais fascinante era perceber que sutilmente as dimensões da sala aumentavam gradativamente, como se novos livros escritos surgissem do nada.

Ah, eternidade! Passarei bem com esta companhia!

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Aconteceu naquela noite, no Bosque...



A data faz-nos lembrar um momento, mas ele não tem sentido se diariamente não é alimentado do sentimento inicial. Como um Big Bang, ele surge. E à medida que passa, a intricada rede da vida se alastra, perpetuando a beleza e enriquecendo o espírito.

A cada dia, pequenos fragmentos de uma composição magistral, de erros e acertos, de tristeza e alegria, formam a melodia de nossa existência. 

Nos vangloriamos de ter tido mais momentos felizes do que melancólicos, e é nessa sintonia que nos mantemos.

Independente do amanhã, o que já foi construído não pode ser desfeito. E sinto-me inteiramente satisfeito com o que vivenciamos.

Agradeço por nossas escolhas e pela oportunidade de estarmos passando juntos por esta vida.

E o que é o amor, senão o sentimento máximo? E é com ele que a intitulo.

Nesse dia, relembremos o princípio e nos regozijemos.

Eu te amo, Eva.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Round 1, Fight!!

Mostre que você não é bunda-mole!! Enfrente-me!!

Um redemoinho de burburinhos, entremeados com gritos histéricos, permeavam na base do castelo. É claro que, como a maioria, não podia deixar de me sentir atraído pela algazarra.

A intensidade colérica depositada no que parecia um duelo extraordinário influenciava a multidão, levando-os a torcer por um dos lados.

Os combatentes: homens fisicamente preparados para encarar facilmente uma guerra movida a lâminas de espada.

O motivo do embate: desconhecido.

Prepare-se!

Já nasci preparado!

Mais clichê, impossível. 

Cada um toma sua posição que, pelo visto, será ofensiva.

Borrões aparecem onde antes estavam posicionados. Por longos dez minutos só se ouviam gritos de ataque e defesa. Ninguém tinha ideia de onde estavam os lutadores.

Expectativa.

De repente, eles retornam na vista dos espectadores. Um estava caído, com o rosto desfigurado de pancada. O que se encontrava em pé, apesar das escoriações, firmou-se como pode e concluiu o movimento com um sorriso e um erguer de braço.

E de maneira sobrenatural, um vozeirão proferiu:

YOU WIN!

Fiquei desnorteado com aquilo... 

Hum... Preciso de um videogame.

Ah, bons tempos...

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Saltos.



Batidas firmes na porta principal. Rítmicas. Sem esmorecimento.

Ao abrir, deparo-me com uma miúda, beirando seus 19 anos.

Por favor, gostaria de desabafar.

Minha expressão levou-a a repetir, e acrescentar:

É muito importante que me ouça.

Dei de ombros e permiti que entrasse no castelo.

Seria possível irmos a uma das torres?

Indiquei o caminho e, uma vez lá, ela sentou-se na cadeira mais confortável que consegui arranjar. Daí então, iniciou seu monólogo:

As pessoas se amontoam para entrar num cubículo retangular, a fim de elevarem-se até o décimo andar, sem saberem que, dentre elas, alguém insatisfeito planeja um ato brutal contra si. Não importa os motivos, apenas o resultado da ação. As perguntas virão. Abismados olhos fitarão o corpo inerte, empapado no líquido rubro que só cresce. Mas de nada adianta os lamentos, nem as lágrimas dos mais sensíveis. Ele simplesmente falecerá.

Umedecidos, dos glóbulos oculares uma torrente traça seu caminho pelas bochechas. Ela seca com as costas da mão.

É isso, Frank. Uma fatalidade. Um salto para a morte. Com ele já são três neste ano.



Silêncio.

Obrigada por me ouvir.


terça-feira, 20 de setembro de 2011

Plástico bolha.


O que está fazendo, Frank?

Há muito Horácio e eu renegamos o episódio do deslocamento forçado para o interior, a fim de manter a amizade.

Não está vendo? Estourando plástico bolha.

Mas sei que aí tem coisa... Estourar talvez seja uma distração, mas em minha humilde opinião, representa uma forma de concentrar-se. O barulho hipnótico de cada estourada propicia pensamentos elevados.

Hum... não. Estou apenas estourando as bolinhas do plástico.

Duvido que seja apenas isso! Não pode ser apenas estourar por estourar?!?!? Você não me engana, Frank!

Mas eu não o estou enganando, meu caro.

Pois eu não acredito em você!

Ora, Horácio. Eu sei o que o perturba. Tem vontade de estourar, mas como é etéreo, não consegue.

Enfurecido, ele solta impropérios e se desvanece.

No meu íntimo, eu me considerava vingado pelo que ele me aprontara.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O caso da água com gosto de garrafão.

"Tudo eu! Tudo eu!"

Ao levar o copo com água à boca, sinto um odor advindo dela. Suspeita número um...

Ao tocar nos lábios, uma leve essência de plástico é sentida. Suspeita número dois...

Somente ao engolir percebo (tarde demais) o que os sinais teimavam em dizer: a água estava tão horrível que era sensato livrar-se dela.

Indignado com aquele ultraje, reflito sobre os próximos passos. Primeiramente, dirijo-me até o garrafão e dou outra provada. Realmente estava inconsumível. Após cuspir a prova do crime, vou até o local em que ela é disponibilizada pedir uma satisfação.

O senhor responsável pelo local estava tranquilamente sentado conferindo o resultado da rodada esportiva quando me viu entrar. Com toda a delicadeza e paciência, dispus-me a explicar-lhe a situação.

Incrédulo com o fato, soltou todos os argumentos que lhe conferiam alguma credibilidade. Não duvidei. Apenas queria ser ressarcido, contudo, como ele foi enfático neste ponto, não poderia dispor de outro garrafão se estivesse aberto o que eu tive que provar para vir até ele discutir o assunto.

Certo. Comprei-lhe outro, de marca diferente. O rapaz que leva a água foi até o castelo recolher o garrafão contaminado e, depois que fi-lo prová-la, ele, com a certeza de um especialista, afirmou várias vezes:

"Ou é o garrafão ou é a água!"

Intimamente, percebi o quanto ele estava certo sobre suas convicções.

Acompanhei o rapaz e, uma vez na distribuidora, pedi para que o responsável provasse da água.

Com uma técnica de fazer inveja ao mais hábil degustador de vinho, ele constatou que eu estava certo. Prometeu-me que iria falar com a empresa de cuja água viera e que iria me restituir quando eles enviassem a reposição.

Bem... hoje eu me "esbaldo" com a mais límpida, cristalina e fluoretada água.

Deu até sede...

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Koyaanisqatsi.


O imenso deserto estava à frente. Ele se distanciara de sua tribo. Precisava ver pessoalmente o que diziam aqueles que iam e regressavam, apesar do que afirmavam os anciãos.

Nada de bom encontrará lá. Uma vida atribulada, vazia, aguarda àqueles que penetram no mundo artificial do homem branco.

Os conselhos dos mais velhos apenas deixavam-no curioso. Ele precisava seguir, deparar-se com o novo, por mais diabólico que pudesse parecer.


Hoje, rendido às tentações mundanas num ambiente desarmonioso, ele tenta, em vão, reencontrar o espírito da mãe Terra.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

As brumas de Asgard.

Por sua quietude, supus que estivesse refletindo sobre a situação inusitada. Porém, deduzi um engano; ela estava aguardando.

Mas, aguardando o quê? Bem... diante dos meus olhos presenciei o que pareceu ser um resquício de um sonho movido a LSD, tamanha a profusão de cores. E como todos os habitantes da vila também gesticulavam e pasmavam como eu, só pude concluir que estava havendo um rompimento. As barreiras entre duas dimensões distintas cediam e uma batalha clareava diante de nós. Primeiramente, as imagens foram se intensificando, até se aproximarem do real; depois, o som... demasiado vívido! Contudo, o escarcéu provocado não nos afetava fisicamente. Éramos espectadores atônitos, embriagados com espetáculo tão sanguinário.


Guerreiros tombam! Preciso adiantar-me! Adeus, criatura!

E assim a valquíria alçou voo. E tão repentinamente surgiu em minha vida, ela se fora para junto de seus iguais. Deuses, semi-deuses, simplesmente guerreiros, numa luta confusa, cujo propósito nos escapa, quando tombavam, eram retirados pelas exuberantes mulheres em seus cavalos alados, levados para Valhala para guarnecer o exército de Odin.

Assim que ela entrou no pandemônio, a cena drástica gradualmente foi desaparecendo. Em instantes, tudo voltara ao normal.

Os moradores ficaram se encarando, talvez esperando uma resposta do outro, que obviamente não viria.

Quanto a mim, apenas registro este caso e o deixo para a incrédula posteridade.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A queda da valquíria.

O galope repentinamente reverberou por todo o castelo.

Surpreso por este tipo de som surgir da torre três, disparo até lá, mas com precaução.


Quando sinto a brisa do mar balançar os meus cabelos, deparo-me com uma majestosa montaria. Um cavalo com asas! Em suas costas, uma linda figura de esvoaçantes cabelos claros que escapavam do elmo, em cujos lados ostentavam metades de asas que apontavam para o céu; o corpo perfeito coberto por uma reluzente armadura e a aura celestial que pairava entorno deixaram-me completamente anestesiado. Só fui liberto do enebriante êxtase quando a mim foi apontada a lança e a possante voz se fez ouvir:

Tu! Prestai-me atenção! Eis-me que cá estou, perdida de minhas companheiras. Necessito de teu auxílio!

Você é... uma valquíria!

Sim! Serva do pai Odin! Devo regressar pois neste instante trava-se uma batalha em Asgard. Devo regressar para buscar os Einherjar, a fim de reforçar a armada de Odin no Ragnarok. Preciso de ti!

E o que eu posso fazer por você? Nem humano sou...

Disso, tu tratarás. Podes bem principiar dando de beber ao meu cavalo. Depois, veremos...

Só espero que Loki não resolva aparecer.


segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Espinafres em dó maior.



Ei, Frank! Como vai?

Almabane!! Você por aqui!? A que devo a visita tão repentina... Não! A esta invasão?! Como foi que entrou aqui?

A porta estava aberta. Mas ouça, vim aqui apenas para te informar que lancei um blog: Espinafres em Dó Maior. Gostaria que, quando você tivesse um tempo, fizesse uma visita. Lá encontrará diversos tipos de textos, geralmente curtos, de todas as categorias. Exponho sobre tudo, pendendo quase sempre para o surreal. Afinal, não adianta escrever e deixar os escritos guardados a sete chaves, não é mesmo?

O texto torna-se inútil. Uma existência sem propósito.

Não teria dito melhor. Bem, caro Frank, já cumpri minha missão aqui, por isso, Adieu!

E assim vai mais um louco com sua loucura...

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Rapaz! Que dia! Que dia!

Meus olhos lacrimejam; não por estar lendo a mais emotiva manifestação humana (o amor impossível e suas consequências) mas por causa de uma negra e espessa fumaça que invade a torre dois com ímpeto.

A razão de tamanha afronta vinha de baixo. Ao localizar a origem, imediatamente entro em ação:

Moleques dos diabos!!! Quantas vezes já disse para vocês não inventarem de queimar pneu!!!

Acredito que minhas súplicas é a motivação para que eles continuem transformando o pior material, daqueles que emitem o mais fétido cheiro quando incendiados, numa massa disforme de lixo derretido.

Eu ei de pegá-los, malditos!! E quando isso acontecer, não terei piedade.



No outro dia sou acordado com fogos de artifício. Toda a vila estava em polvorosa. Um grande evento desenrolava-se em torno do castelo. Com direito a papéis coloridos recortados, pendurados em linhas que cortavam as barracas montadas sem qualquer planejamento; e pessoas em trajes adequados para a celebração, formando um conjunto harmonioso em meio ao caos. O cheiro forte de fritura despertava a fome dos animais carniceiros que insistiam em rodear a vila em busca de conforto. Em meio ao burburinho festivo, músicas típicas estrondavam e a alegria era geral.

Por um tempo fiquei observando àquilo com interesse. Quando meu pé principiou a bater no ritmo intruso que alcançava a torre, pensei em entrar. Contudo, uma força maior que eu não permitia afastar-me. Fiquei ali, no início analisando, mas por fim, apenas apreciando.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Aguardar acontecer talvez seja tarde.



Estou há dois dias aguardando Horácio ter coragem de me encarar. Tentei aprofundar-me na arquitetura psicodélica do castelo, mas não tive sucesso em encontrar o Pépe. Aquele quarto misterioso na qual ele vive (não sei como) deve ser mais bem entranhado do que me recordo. Enfim, resta-me esperar alguns dos dois se mostrar.

O que Ranter dissera era de fato o certo. Desde que regressei, todas as manifestações de desordem sumiram. A energia até voltou.

Gostaria de ter ouvido mais histórias dele... Ora, e por que não?! Vou visitar o velho Mathias, talvez ele ainda esteja lá.

Coloco o essencial em uma mochila e sigo para a cabana.

No caminho fico me perguntando o que a raposa estará fazendo com a pistola que lhe dei. Espero que nada contraproducente.

Mas é ao chegar ao meu destino que constato o pior.

Por meu pai! A casa sumiu!

Corro até o local onde ela deveria estar, tentando encontrar qualquer vestígio de que ela realmente esteve lá dias atrás, mas nada acho.

Amaldiçoei a raposa sem pensar se ela era a culpada. Queria apenas descontar em alguém, e a perda da arma ainda não havia sido digerido bem por mim.

Agora, restava apenas voltar para casa.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Ao ponto de partida.



O retorno sempre é mais célere do que a ida.

Depositei o minúsculo castelo no chão, tomando o cuidado de deixá-lo bem encaixado; calculei de cabeça as reais dimensões dele e fi-lo situar-se no centro do espaço aberto ocasionado por seu súbito encolhimento. Parecia um brinquedo. Afastei-me dele e, ao retirar a pistola de nanicolina, pensei: "Será que ela não irá diminuir ainda mais? Ele poderia ficar numa tamanho subatômico!!" Decidi não arriscar.

E agora?

Psiu. Ei, amigo!

Eu não podia acreditar no que via. Era a raposa comerciante.

Não vai me dizer que tem uma poção que resolva esse impasse.

Não há problema que não possa ser resolvido. E para esta questão, apenas um detalhe deve ser observado.

Qual?

Ora, não nos precipitemos. Uma contribuição pecuniária cairia bem agora...

Ai, eu sabia. E quanto seria?

Não me expressei bem. Na verdade, gostaria de fazer uma troca: a informação por um objeto.

Sim?

A pistola. Dê-me a pistola.

Ensandeceu?! Como poderia desfazer-me de algo tão... tão... periculoso?!?!

Não seja imaturo. Eu garanto que seu castelo restabelecerá suas majestosas dimensões.

Acreditar naquela raposa era difícil. Entregar-lhe uma arma com certeza não era uma atitude sensata. Mas, enfim, estava enrascado mesmo.

Certo. Aqui está.

Ótimo, Frank. Observe...

Havia um botão imperceptível em uma das dobras da pistola. Ele apenas girou-a. Apontando para o castelo, fez uma luz esmeralda fulgurante acertá-la me cheio. Assim, gradativamente, as altas torres novamente cortaram o céu. Tudo voltara a ser como antes.

Satisfeito, a raposa agradeceu a transação e foi-se. Enquanto a mim, recolhi meus pertences e segui para o enorme portão à frente.

Momento conspiratório cultural: Splice.

Que ímpeto é este de criar?

É a vontade de modificar, experimentar, alcançar o nível máximo da mais completa perfeição só atingida por Deus?

Quem é Deus, afinal? O QUE é Deus?

Ah, homem! Adentra em caminhos inexplorados para criar variações de um mesmo tema. Junta o que pode e faz. Imita o criador primevo e, em sua ânsia em satisfazer desejos seus, não mede as consequências. Suas criações seriam monstros?



O filme Splice : a Nova Espécie trata do tema. Splice significa mistura, conjunção. E é justamente isso que o casal de cientistas fazem. A fim de sintetizarem uma proteína específica para uma empresa, realizam um experimento incorporando no pacote o DNA humano. O resultado é um misto de várias espécies. Um ser que se adapta e tenta seguir adiante em sua vida.

Há quem diga que experimentos como vistos no filme estão sendo realizados e que os resultados às vezes são noticiados (o chupa-cabras, por exemplo).  Mas saibam que os filmes não estão aí apenas para divertir através da ilusão calcada numa ficção científica impossível; fantasia advinda da cabeça de mentes criativas. São mensagens, avisos.

E desde já esteja avisado.


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O fim da jornada.

Horácio é um mentiroso, Frank. A confiança que você depositou nele era sem fundos.

Mas o que você me diz é muito grave! Aquele miserável! Como pode?!

Ele tramou isso com o Pépe. Faz um bom tempo que ele queria visitar os parentes do interior...

Mas... espere aí. Como você sabe sobre tudo isso?

Recursos, Frank, recursos. Bem... no mais, te digo: o terremoto ocorreu justamente porque o castelo não estava no seu local originário. Removê-lo desencadeou uma série de eventos estranhamente dramáticos, culminando neste último.

Nossa...

Por isso, espero que você compreenda a razão da necessidade e urgência em manter-se lá, pois à medida em que fica tribulando numa jornada sem sentido, e que favorece apenas um fantasma (que por preguiça não se utiliza de outros meios, até bem menos inconsequentes, de visitar seus parentes), o mundo corre perigo de esfacelar-se numa onda pandemônica crescente de caos. Fui claro?

Não poderia ter dito melhor.

Por certo, você acatará essa minha sugestão.

Certamente. Contudo, aceitei fazer companhia para o Mathias esta noite,  por isso irei amanhã pela manhã.

Desculpe, Frank, mas não pode ser. Você deve retornar imediatamente. Assim que tiver deixado o castelo em seu devido lugar, poderá visitar o Mathias quando quiser. Além do mais, sua preocupação com a solidão dele é infundada. Ele terá alguém para conversar: eu.

Bem... Sendo assim...

Após me despedir, respiro fundo. Ajeito meus pertences e trilho o caminho de volta, com a certeza de que Horácio iria pagar bem caro por ter me aprontado uma dessas.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

A jornada: apresentando Ranter.

A voz do velho da cabana era tão melodiosa quanto a música que conseguira tirar horas antes de sua rabeca. A história de Ranter foi finalmente exposta:

Advindo de uma vila menor que a menor de nossas vilas, Ranter foi obrigado, para manter a integridade de sua morada e a dos demais moradores, a alistar-se numa guerra que de imediato não lhe afligiria mal, mas que a longo prazo com certeza repercutiria em sua vida negativamente. O local em que nascera e vivera até aquele momento, conjunto das melhores recordações de sua longa jornada, transforma-se-ia num sepulcro de escravos caso ele e praticamente todos os homens não se oferecessem para, unidos sob o julgo de um comandante, responsável em reunir todas as aldeias esparsas da vasta região em que fazia parte seu lar, lutarem determinados contra um império que se formava.


A vitória, infelizmente, não foi conseguida. Todos os que puderam, retornaram. Porém, alguns renderam-se à cobiça e decidiram auxiliar os conquistadores.

Para Ranter e os outros guerreiros, que mantiveram consistentes a humildade e a lealdade a um modo de vida em que a liberdade era uma vertente, enojaram-se com a escolha dos infelizes que agora teriam que enfrentá-los.

Houve um combate, tão sangrento quanto os presenciados no campo de batalha, contudo, a intensidade e a confluência de sentimentos liberados pelos poucos homens que ousavam desafiar o império, era estupidamente maior.

Em menor número, os defensores não tinham escolha: a morte era o único caminho. E a derrota era iminente.

Ranter, que naquela época possuía outro nome, fatigado e ferido, acabou se exilando, mas com a esperança de vingar-se dos traidores.

Foi daí que lhe aconteceu um fato surpreendente. Um ser, semelhante a um homem de fina estampa, que emitia uma aura estranha, ofereceu-lhe uma oportunidade para reaver tudo o que perdera.

Desesperado, Ranter não teve escolha. Uma vez aceita, ele sentiu uma mudança interna. Sentia-se confiante, forte. Poderia realizar tudo o que tivesse em mente.

E assim foi. Ele destruiu seus inimigos com tal ímpeto e sanguinolência que, ao fim do ato, ao ver o resultado, chorou de desgosto.

Sua melancolia atingiu níveis tão alarmantes que decidiu desistir da vida.

Quando se preparava para quedar-se num precipício, foi impedido por uma voz. Tão vasta que parecia vir de todos os lugares. Era uma nova chance. Um pacto para toda a vida.

Foi daí que conseguiu sua imortalidade?

Ele teve que cumprir algumas tarefas. Alcançando-as, foi lhe cedido a dádiva (ou não) da imortalidade. Mas o interessante é que ele poderia abnegar dela quando quisesse. Bastava copular; deixar sua semente no mundo.

Ele é obstinado, não?

Ele me disse que ainda não encontrou a pessoa certa.

E indeciso...

Você não entederia, Frank.

A última frase havia sido proferida por um ruivo de sobretudo, de quase dois metros de altura, estacionado no meio da porta.

Ranter, é você?

Sua audição continua boa, Mathias. Fico feliz por lembrar de mim.

Mas que surpresa...! O que o traz até meu humilde lar? Por acaso veio reaver a rebeca?

Claro que não, meu velho. Ela é sua. Um presente para a pessoa certa. Na verdade, vim cá para convencer nosso estimado Frank a permanecer no precipício, de onde jamais deveria ter saído.



Obs.: Ranter terá suas próprias histórias, inclusive sua origem, mais detalhada. Em breve.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A jornada: conversa pra Frank dormir (ou não).


Eu dizia que na aritmética...

Desculpe, senhor, mas não falava sobre isso.

Não?

Não.

Hum... Estranho.

Ele passou curto espaço de tempo refletindo.

Bem... Deixa pra lá. Gostaria de mais uma xícara de chá?

Não, obrigado. Estou mais do que satisfeito. E, além do mais, está tarde...

Por favor, fique está noite por aqui. Há um quarto disponível. Nesses dias atribulados é difícil ter alguém que pare por estas bandas. Faz um bom tempo que não converso com viva alma.

Sinto. Terei que declinar da proposta.

Eu insisto.

O desespero daquele homem por companhia comoveu-me. Por mais que soubesse que estava deveras atrasado em minha jornada, não poderia ser insensível ao ponto de deixá-lo sozinho naquele momento.

Está certo, senhor. Cedo ao convite.

Um largo sorriso estampou-lhe o rosto.

Você gosta de histórias?

Não sou de vangloriar-me, mas não poderia arranjar melhor ouvinte.

Fico feliz em saber. Tenho um monte delas para nos entreter até a hora de dormir.

Pois bem, conte então.

Sabe, filho, eu não nasci cego. Assim fiquei devido a uma tremenda falta de sorte numa de minhas aventuras.

Aventureiro? Interessante. O que fazia?

Eu achava coisas para as pessoas. Objetos, pessoas, o que lhes fosse mais caro. Encarava todos os empecilhos, pois o que me mais motivava era a jornada. Conheci muitos lugares; fascinantes e enigmáticos indivíduos.

Ele fez uma pausa para sorver o chá.

Dentre eles, um em especial me fascinou. Seu nome (pelo menos como era conhecido; o nome original, segundo ele, se perdeu com o tempo) era Ranter. Assim como eu, ele também buscava coisas. Contudo, nunca ei de comparar a loucura que eram seus desafios e histórias com as minhas experiências, por mais insanas que fossem. Ele era especial.

O que ele tinha de mais?

Na verdade, ainda tem. Ele é imortal.

Imagem retirada do site http://jairclopes.blogspot.com/2009/10/imortalidade.html

Como?!

O que falei, filho: imortal.

Se ele pudesse ver, riria da expressão de incredulidade que fiz.

Como é possível?

Se não acredita, paciência. A única comprovação que terá virá de minhas lembranças. E eu ainda não estou gaga, se quer saber.

De forma alguma duvido do senhor! Já ouvi muitas histórias estranhas. O que gostaria de saber é se ele comprovou isso para o senhor.

Quando o conheci, ainda era um jovem. Quando o vi pela última vez, uns bons vinte anos depois, ele não tinha se alterado em nada (!), nenhum fio de cabelo embraquecera, nenhuma ruga para contar história. Foi aí que ele me explicou o que tinha lhe acontecido. Quer ouvir?

É claro que sim!

No próximo post, filho...

...droga.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Momento conspiratório cultural: Jack Vance.

As aventuras de Frank, vez ou outra, poderão ser interrompidos para a inserção de alguma matéria cujo teor for considerado interessante para exposição.



O Planeta dos Dragões ganhou o prêmio Hugo de Ficção Científica, merecidamente. Seu autor, Jack Vance, é  um importante escritor americano do gênero ficção científica, e seu trabalho merece ser conferido. Mas O Planeta dos Dragões é um dos mais reconhecidos, principalmente por esta obra tratar, com uma descrição verossímil, um planeta de nome Aerlith na qual sua população, formada pelos derradeiros homens, denominados Homens Totais, tentam sobreviver num ambiente medieval, em combates inúteis provocada por desavenças e interesses territoriais.

O autor.

Em meio a isso estão os Sacerdotes, homens que andam sempre nus e nem se consideram homens. Respondem de forma vaga a todas as perguntas que lhe são dirigidas e preferem ficar em total passividade, que é sua Base Racional. Aguardam a extinção dos Homens Totais.

Não bastasse os combates recorrentes, os homens ainda encaram a visita dos Básicos, seres draconianos que seguem uma Regra mostruosa, em que os homens devem-se se submeter a eles, para que possam ser transformados.

Numa visita dos Básicos, Kergan Banbeck, um líder tribal, consegue capturar vinte e três Venerados (como são chamados pelos homens modificados). Dessa conquista, há uma mudança social no planeta. Dos descendentes destes Básicos, surgem as inúmeras raças de dragões, que são criados principalmente para a guerra.



Passado-se um tempo considerado, Joaz Banbeck, atual líder, além de lidar com as constantes investidas de Ervis Carcolo, líder do Vale Feliz, faz uma sinistra constatação. 

O que é interessante no livro é a menção de uma estrela vermelha, denominada Coralyne, cuja aproximação coincide com a visita dos Básicos.

(...) Está vendo esta estrela vermelha? Nos almanaques antigos é chamada Coralyne. Ela passa próximo a vós a intervalos irregulares, porque assim é o fluxo das estrelas neste aglomerado. Estes intervalos coincidem sempre com ataques dos Básicos.

Joaz conferencia com Carcolo (num momento de trégua), mas este, impassível, não segue a sugestão do (considerado) inimigo e, ao invés de cavar buracos e buscar proteção como estavam fazendo no Vale Banbeck, Carcolo prefere planejar uma nova investida contra Joaz.

E é em meio a uma guerra entre as duas tribos que os Básicos aparecem. Como era esperado, o Vale Feliz sucumbe rapidamente, mas o Banbeck dá trabalho aos visitantes.

Num determinado momento, um Atirador (um ser próximo ao que era um homem) a mando dos Básicos, tentou barganhar com Joaz. E sua sugestão é deveras interessante... A passagem merece ser vista:

    - Eu trago uma integração dos meus senhores.
    - "Integração"? Não entendo o que isso quer dizer.
   - Uma integração dos vetores instantâneos do destino. Uma interpretação do futuro. Eles desejam que o sentido lhe seja transmitido nos seguintes termos: "Não desperdice vidas, tanto suas quanto nossas. O senhor é valioso para nós e receberá um tratamento de acordo com este valor. Renda-se à Regra. Cesse a destruição inútil da empresa."
    Joaz franziu a testa.
    - "Destruição da empresa"?
    - A referência diz respeito ao conteúdo dos seus genes. A mensagem é essa. Aconselho-o a aceitar. Por que desperdiçar seu sangue, por que destruir mais homens? Venha comigo agora; tudo sairá melhor.
    Joaz riu, sarcástico.
    - Você é um escravo. Como pode julgar o que é melhor para nós?
    O Atirador piscou.
    - Que outra escolha existe? Todos os nichos residuais da vida desorganizada vão ser extintos. O caminho mais fácil é o melhor. (...)

Além disso, quando Joaz propõe que ele se junte a eles na luta pela liberdade, recebe esta resposta:

    - Quem gostaria de ser um selvagem? Quem vos imporia lei, controle, direção, ordem?

É deveras importante salientar todas essas mensagens significativas. Principalmente para as pessoas que conhecem assuntos como Nibiru e os reptilianos.

E partindo-se do pressuposto que todos nós compartilhamos informações num inconsciente coletivo, fica quase impossível não mencionar o uso de "ideias inspiradoras" pelos autores, que apenas nos passam o conhecimento pré-existente.

É fascinante observar as variantes formas com que os artistas expressam os dragões.




As passagens foram retiradas dessa edição.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A jornada: o velho da cabana.

Era uma cabana ordinária. Parecia inacabada, mas da chaminé um filete de uma escura fumaça cortava o céu.


A mulher que teimou em me acompanhar desistiu após o tremor, lembrou de sua caríssima coleção de peças de porcelana que estava numa mesa sem qualquer borda que a impedisse de despedarçar-se no chão. Além do que, também havia o seu papagaio de estimação, o Celulose, que poderia estar apavorado, o pobre.

Agradeço à coleção e ao Celulose por atraírem a atenção da mulher. Agora poderei retormar o rumo que tento seguir desde os avisos premonitórios do Horácio.

Antes de prosseguir, no entanto, decido arriscar pedir água, pois o que trouxera há muito tinha acabado e os meus lábios, ressecados por natureza, estavam numa situação deprimente.

Aproximo-me furtivamente da frente da cabana. É quando ouço uma melodia alegre, contagiante, escapando de dentro. Um talento nato numa situação tão deplorável?!

Antes do meu punho acertar a porta, a música cessa bruscamente, como um disco cuja agulha é abruptamente puxada.

Quem está aí?

Sinto-me tão intimidado com o ato antecipado que não consigo emitir nenhuma palavra.

Eu sei que está aí, quem quer que seja! Por favor, não se acanhe! Entre, a porta está apenas encostada.

Quando entro, digo:

O senhor deposita muita confiança em estranhos...

Não há nada de valor aqui para ser roubado. Quer dizer, a não ser o meu violino, mas ainda assim, bem deteriorado.

Percebi pelo olhar vago que se tratava de um cego. Um senhor cujas madeixas grisalhas e os sulcos em forma de rugas ostentam a avançada idade.


Só gostaria de pedir-lhe para encher o meu cantil.

Ora... Por que não toma um chá comigo? Estava esperando a chaleira apitar e, pelo que ouço, está fervendo!

Deixe-me ajudá-lo...

Não se preocupe, filho. Estou bem habituado à minha velha cabana.

O senhor da cabana me inspirava confiança. E o fato de ser cego deixava-me à vontade. Acredito que finalmente poderia ter um instante de sossego desde que iniciei a jornada. Um verdadeiro momento de sossego.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A jornada: mexendo o esqueleto.

O chão começou a tremer. Não achei inteiramente ruim esta fatalidade, pois tal fato calou a irritante mulher, que teimava em me seguir, por um instante precioso. Ela parecia tão abalada com o tremor que nem frases chorosas de desespero foram emitidas.


Eu sabia o que se passava. O inevitável chegara. O motivo maior de ter abandonado o litoral. Mas como não havia me distanciado o bastante da costa, acredito que possa ser acometido pelo mesmo fim que suponho ser destino de todos que ficaram na vila.

A mulher agarrara-se a mim. Ela tremia. Com certeza não sabia o que a esperava, mas um terremoto tende a causar esta impressão nas pessoas. Ainda mais quando sabemos que por estas paragens a probabilidade disto ocorrer é infinitamente remota.

O chão! As colinas! Veja!

Uma enorme fissura rasgava a floresta, que por dentro da mata víamos árvores inteiras sendo engolidas por buracos recém abertos. O estrondo provocado por esta ruptura era assustador.

Sem muitas opções, tratamos de nos distanciar dali o mais rápido possível. Corríamos em ziguezague, não por que queríamos, mas devido às circunstâncias.

E tão abruptamente surgiu, o terremoto cessou.

Ainda ofegantes, encaramo-nos. Apesar de nossos atritos, sabíamos que tal experiência nos uniria; era o pavor do inesperado conspirando na insistente relação de duas almas fadadas a não terem qualquer simpatia uma pelo outra. Bem... pelo menos até eu conseguir deixá-la à salvo.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Anteriormente na Corcova...

Bom dia, senhoras e senhores! Eu sou a primeira e única mochila a relatar fatos passados com uma precisão ímpar! Vamos a eles:

"Não parece, mas eu estou estupidamente feliz pela oportunidade!"

Tudo começou quando Frank percebeu por meio de uma falha elétrica que algo de ruim estava para acontecer. Algo relacionado ao Sol. Por isso decidiu rumar para o interior, contudo, o castelo não queria ser deixado para trás.

Horácio, o eterno morador, revela uma sala secreta guardada por Pépe, que entrega a Frank uma pistola capaz de reduzir o tamanho do castelo.

Realizado o intento, Frank parte. Entretanto, sua saída da vila é dificultada pelos moradores e suas senhas obscuras, além de uma raposa comerciante.

Conseguindo finalmente sua passagem de ida, Frank inicia sua jornada.

Ele encontra um acampamento composto por dois casais. Antes de pedir abrigo, ele toma a poção vendida pela raposa (que muda sua aparência) e sua permanência é facilmente aceita.

Acolhido, Frank, após um breve cochilo, é sobressaltado pela aparição de quatro demônios, que substituem os dois casais anteriores.

Disso, ele é levado para um local infinitamente branco. E lá passa por diversas situações: desde pássaros dóceis que se transformam em terríveis aves de rapina até um jantar improvisado por um ser de cabelo rosa e pele azul.

Passando por todas as intempéries, Frank decide se resignar. Com isso, descobre que tudo não passou de um pesadelo.

A fim de não transformar a realidade também num mau sonho, revelando seu real rosto, Frank sai antes do amanhecer.

Por fim, num trecho ele encontra uma mulher frenética, que o atormenta constantemente. E eles acabam presenciando um ato de covardia do gato a jato.

E é a partir daí que continua esta saga. Mas para um próximo post.

Até lá!

terça-feira, 5 de julho de 2011

A jornada: a queda a jato.

...mas continue contando, o que senhor fez quando o chamaram de analfabeto?

Ninguém me chamou de analfabeto.

Não? Que estranho... Tem certeza?

Os resquícios que sobrara de minha paciência haviam enfim escoado pelo ralo.

Escuta aqui, moça: EU NÃO TE CONVIDEI PARA ANDAR COMIGO!! POR ISSO, DEIXE-ME EM PAZ!!

Ai que bruto! Tá bom! Tá bom!

Contudo, ela continua andando ao meu lado, concentrada, como se buscasse na memória alguma explicação para um fato qualquer.

Tem certeza MESMO?

Não resisti à curiosidade.

Do quê?

De que não te chamaram de analfabeto?

Pensei seriamente em enforcá-la, mas fui impedido deste ato vil quando ouvimos um baque surdo, próximo dali.

O que se passa?

Era um pássaro. Estava estatelado no chão. Definitivamente morto.


Logo em seguida, outros seguiram-no. Uma chuva sinistra de aves caiu diante de nós.

Meu Deus! Oh Meu Deus! Mas o que está havendo?!?

Ao fitar o galho de uma árvore balançando eu obtive a resposta.

É o gato a jato... EI!

Ele nos fitou.

É... Você mesmo! Não tem vergonha?

Ele deu de ombros. Daí então, iniciou uma sequência de sinais com as patas dianteiras. Infelizmente, eu não entendo libras. Infelizmente, a mulher entende. E ela não perde tempo na tradução.

Ele tá perguntando o que tá pegando?

Diga a ele que é cruel matar todos estes pássaros de susto! Se fosse pelo menos para comer... Mas por diversão!! Faça-me o favor!!

Quando a mulher encerra o conjunto de sinais, o gato sorri e some.

Se ele pudesse falar, diria: "Asas batendo, marcha de decolagem, turbinas e JÁ!!"

Gato miserável...! Bem... O mal que ele fez não pode ser desfeito, por isso, devo seguir em minha jornada.

Espere!

O que é, mulher!?!?

O senhor ainda não me respondeu o que fez quando o chamaram de analfabeto.

A jornada: encontro na mata.

Uma chuva rala encerra a tempestade. Um poderoso Sol aparece em toda a sua grandeza no início de um novo dia.

Cordilheiras vão se distanciando à medida que sigo no trecho anguloso, que corta uma floresta ancestral, sempre descendo.


A trilha sonora envolvente das diversas espécies de pássaros embalam minha descida. Árvores de grossos caules sustentam volumosos galhos, sombreando-me. Vez ou outra, de soslaio percebo movimentações furtivas de animais pequenos. Só faltava uma mulher cantarolando com os animais da floresta para completar a paisagem idílica.

Agora não falta mais. Bem... quase isso.

Uma mulher de suntuosas formas corre em minha direção. Sua roupa esportiva, juntamente com um aparelho de som portátil, cujos fones centravam sua atenção apenas ao exercício, atualizavam a forma de interação entre ela e os pobres e ignorados animaizinhos do lugar. Solitária, de sobrolho cerrado, a mulher parecia deslocada com relação àquele local.

De tão concentrada ela só acaba me percebendo quando já estava praticamente passando por cima de mim.

Ei! Cuidado aí, cara! Não está vendo que...

Daí ela finalmente olha para mim.

Meu Deus! Você é um monstro!

Também não precisa ofender.

Você vai me enforcar?

Por que eu faria isso?

Não sei... Talvez por você ser um... monstro?!?!

Calo-me diante de tamanha injustiça.

Você vai me deixar ir? Por favor, eu tenho uma carreira para ascender. Logo agora que minha vida estava entrando nos eixos me acontece uma fatalidade dessas...

Com licença, mas eu não consigo ver fatalidade nenhuma. Acho que está exagerando. Por que não vai simplesmente embora?

Porque você pode me acertar quando eu der as costas!

Bah! Quer saber, vou andando! Até nunca mais.

Espere! Não se ameaça as pessoas assim e depois vai embora! Volte aqui!

Ouço cochichos da mata... E risos abafados.