segunda-feira, 3 de novembro de 2014

As Crônicas de Igor (8) - Questionamento tardio.

O encontro inusitado fizera-me perceber o quão alheio mantinha-me diante da ilógica situação. Mordomo-rôbo e galináceas invasores de um satélite com uma imensa biblioteca? Era muito para uma mente sã.

Diante de minha perplexa constatação representada por uma encarada indagadora, a galinha de aspecto mais exuberante se pronunciou:

"E então? É seu ou não é?"

"Quem diabos são vocês?!", foi tudo que pude estabelecer numa linha de pensamento perturbado.

Elas olharam entre si, balançando a cabeça, certamente decepcionadas com minha resposta, daí então emitiram um ritmado cacarejo às suas costas. Num instante, surgiu por detrás de uma abertura um enorme galo, tão aristocrático quanto elas, e também um pouco afetado. Marchando em vez de caminhar, ele me encarava com o rosto petrificado numa inclinação ameaçadora. Sua aproximação escurecia o ambiente (aparentemente, parecia ter duas vezes o tamanho de suas companheiras), contudo, permanecia sóbrio em meu lugar.

Parando a dois metros de mim, ele vagarosamente inclinou a cabeça para o outro lado, cujo estalo fez eco. Estático, fitou-me com desdenhosa zombaria, soltando um misto de cocori-có com riso provocante. Continuei em meu lugar, sério.

Foi então que as asas se elevaram, tão céleres que o ar deslocado no movimento quase me fez afastar de onde estava.

Com determinação, o galo movimentou seus braços emplumados. Um redemoinho se formou. Tive que proteger a vista.

Quando menos percebi, tinha sido lançado ao encontro do teto, que se esfacelou, abrindo-se na imensidão espacial. Rodopiando, sentia a gravidade do lugar diminuir sobre meu corpo. Estaria condenado a vagar pelo cosmos?


segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Séries que acompanho #1 - PERSON OF INTEREST



Houve um momento em que a ficção embalava a imaginação dos idealizadores e, com sorte, alguém decidia investir tempo naquele ápice criativo e desenvolver a ideia, tornando-a uma realidade.

Hoje, parece que pareamos (excetuando alguns casos ainda não catalogados) ficção com realidade. E nada mais palpável do que observarmos as produções recentes, seja na TV (cuja qualidade de alguns programas atinge patamares elevados), seja no cinema. Em especial, na série dramática criada por Jonathan Nolan e produzida por J. J. Abrams, vemos uma ruptura entre o que chamamos cotidiano e fantástico.

Com início de exibição no ano de 2011, a série trata, principalmente, da tentativa de um enigmático senhor chamado Harold Finch de auxiliar (ou impedir) pessoas de se machucarem. Ele é responsável pela construção de uma máquina que utiliza todos os recursos informativos disponíveis a fim de prever possíveis acontecimentos danosos ao país, como atos terroristas. Mas não é só isso... Além de ataques que afetariam muitas pessoas, ela também alcança casos considerados irrelevantes para o governo (que detém o controle da máquina), cuja lista é eliminada ao fim do dia. É justamente nos casos "irrelevantes" que Harold se concentra, mas para isso ele precisa de alguém treinado, que impeça os acontecimentos trágicos de ocorrerem, daí surge John Reese, um ex-boina verde e agente de campo da CIA dado como morto para auxiliá-lo.

O que começa como "caso da semana" (eles resolvendo um problema específico por vez) descortina-se sobre os envolvidos a intrincada história, cujos participantes desse perigoso jogo vão se revelando pouco a pouco e ganhando dimensões mais complexas.

O que me faz acompanhar a série... 

A história trata de heroísmo e relações humanas numa Nova Iorque constantemente monitorada, mas ela é, principalmente, sobre a máquina. Os envolvidos nada mais são do que peões, inseridos numa batalha que eles sequer podem imaginar. O fato dessa proximidade vigilante nas quais nos submetemos por receio de sofrermos caso não estejamos sendo vigiados pelos olhos incansáveis do poder público (a qual delegamos nossa liberdade) torna a série objeto de discussão, onde o mundo representado em 1984 de George Orwell paira, assombrando-nos com sua intrusiva presença.

Uma cena antológica

Quando Harold comenta que as redes sociais facilitaram a vida do governo, pois não era mais preciso pedir à população informações sobre si.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

As Crônicas de Igor (7) - O som ao redor.

"Há algo que eu possa fazer a respeito?", estava pronto para encarar o mundo.

O robô havia desaparecido em meio à confusão que se instalara antes mesmo de eu completar a pergunta. Para aonde se dirigiu faria parte agora do meu enorme repertório de questionamentos sem resposta.

Enquanto buscava um direcionamento de ação fui surpreendido por uma súbita calmaria. Por um eterno segundo, o silêncio se impôs. Era imperceptível o mais ínfimo som. Mas logo perdera a majestade por uma cacofonia de cacarejos. Isso mesmo: cacarejos.

Voltei minha atenção à inconfundível, porém incongruente manifestação (diante do local em que estávamos) galinácea. E, para minha pasmada constatação, a suspeita não era infundada! Ali estavam, bem representadas, duas galinhas (estranhamente austeras no caminhar) trajando vestimentas lindamente ornamentadas.

Elas primeiro se encararam, com profunda seriedade, numa mútua concordância de balançar de cabeça. Depois, fitaram-me de olhos semi cerrados. Uma delas toma à frente e cacareja.

Obviamente, mesmo com a super inteligência que pulsava no meu ser, não entendi patavinas. O que tornava difícil era que não adiantaria nada pedir para ela repetir. Ou talvez eu pudesse perceber as nuances, as repetições, as entonações, mas eu precisaria de tempo, afinal, era uma nova língua a ser aprendida.

Como que adivinhando o impasse que nos impedia de conversar, a galinha que se adiantou girou um botão na altura do pescoço, soltou um pigarro demorado e novamente tentou:

"Este satélite é seu?"