quarta-feira, 21 de maio de 2014

Crônicas de Igor (4) - A primeira parada.

Antes de prosseguir a história, abro um parênteses quanto ao hiato em que o leitor (volte das catacumbas, por favor!) foi submetido: deparei-me com problemas além de minha alçada, tais como carência de paciência, criatividade nula, um ar desesperançado com relação há existência de leitores, enfim, um conjunto impeditivo de alto grau cuja justificativa sucumbe diante explicações mal dadas.
Agora, voltemos a nossa programação normal (ou quase)...

***

É loucura, eu sei, seguir cegamente um ser de tão assombrosa concepção, mas que alternativa tinha? Aventurar-me no vazio de fora? Como aparentemente ganhei virtudes fantásticas, não temi os possíveis perigos que viria a encontrar.

"O senhor quer conhecer nossa biblioteca?", sua voz de timbre constante quebrou o silêncio que imperava.

"Claro... Ficaria encantado com a oportunidade", disse após considerar bastante se havia um traço sequer de inverdade no que me era proposto. Uma tarefa, devo salientar, deveras inútil.

E assim atravessamos um grande saguão cujo teto perdia-se na escuridão. Admirei-me com a absurda estrutura, pois, externamente, não se notava tão gigantesca arquitetura.

Mais adiante, uma porta pequena, cerrada, parecia ser a passagem para o nosso destino.

"Está pronto para engrandecer-se com todo o conhecimento existente?", desafiou.

Como abarcar tamanha informação num espaço aparentemente minúsculo?

"Certamente..."

Quando o robô escancarou a abertura, fui banhado por uma luz maravilhosa. Os olhos, ao acostumarem-se com a intensa luminosidade, não puderam crer no que via. Uma imensurável biblioteca se estendia até onde a vista alcançava!




terça-feira, 17 de setembro de 2013

Crônicas de Igor (3) - A Estação.



Uma porta, escancarada. Na verdade, uma passagem retangular, sem nada que impedisse alguém de cruzá-la. Dela, uma tênue luz escapava, sorrateira.

Parei por uns instantes à sua frente, aguardando qualquer movimento. Contudo, o cenário insistia em sua inalterabilidade. Vistoriei os arredores, sem pressa. Nada.

Vendo que não haveria problemas, entrei. Por um momento, minha vista embaçou, forçando-me a acostumar à incandescência que a princípio não aparentar ser tão forte.

"Olá", a voz metalizada surpreendeu-me, mas não a ponto de fazer um escândalo. Era um robô humanoide, sem adereços.

"Oi", aguardei apreensivo um sinal de resposta.

"Bem vindo à Estação", abriu os braços e curvou-se enquanto dizia. O zumbido do movimento era agradável. Quando falava, uma luz cintilava na região bucal. Dos olhos, amendoados e escuros, pude perceber uma leve claridade lilás.

Esperei o próximo passo. Ele voltou à posição original e falou:

"Gostaria de conhecer o lugar?"

Fitei-o, desconfiado, mas, no fim, dei de ombros e disse:

"Ora, por que não? Vamos lá!"


sexta-feira, 1 de março de 2013

Crônicas de Igor (2) - Luz na escuridão.

Como era possível respirar? O satélite não possuía atmosfera. Não podia nem sequer ouvir meus passos na imensidão desértica enquanto buscava algo de extraordinário em meio a desolação.

Apesar da fantástica vista proporcionada pela escuridão persistente, a absurda sensação de solidão fez meu coração acelerar. Inexplicavelmente, as funcionalidades de meu corpo não pareciam propensas ao colapso do ambiente hostil. Ao contrário, elas se adaptaram.

Quem, ou o que tivesse feito isso comigo, eu intimamente agradecia a oportunidade de permanecer vivo. Mas precisava encontrar algo que afastasse de mim a senilidade.

Felizmente, minhas preces foram atendidas.

Mais a frente, uma torre pálida como a lua cortava o céu estrelado e uma fagulha azulada escapava do seu topo.

Uma luz na escuridão - Foto de Miguel Lucena.


Diante desta visão segurei a respiração (algo que não precisava, mas a emoção incondicional tomou conta de meu corpo, resvalando as lembranças de antigas sensações). Resoluto, segui em sua direção, admitindo a impossibilidade na certeza de encontrar vida inteligente ali.